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[ENTREVISTA] Engenheiro da Vale fala desde as necessidades de lubrificação à parceria estratégica com a PETRONAS

A Vale foi criada em 1942 como a estatal Companhia Vale do Rio Doce. Em 1997, passou a ser uma empresa privada e, hoje, figura como uma das maiores mineradoras do mundo. Com atuação em mais de 30 países, todos os seus números corroboram a grandeza da organização. Atualmente, conta com mais de 120 mil colaboradores (entre diretos e terceirizados), sua produção de manganês corresponde a mais de 70% do mercado nacional e protege o equivalente a 6 vezes o total da área ocupada pelas unidades operacionais.

Embora seja reconhecida internacionalmente como mineradora, a Vale está presente, também, em outros segmentos, como siderurgia, logística e geração de energia. Portanto, como se pode imaginar, manter todos os parques industriais funcionando, sem paradas não programadas e produzindo de acordo com o esperado, é um enorme desafio para qualquer gestor. 

Assim como toda grande empresa, também presenciou as mudanças ocasionadas pela chegada da Indústria 4.0. Para entender melhor quais têm sido os principais desafios da Vale e como a parceria com a PETRONAS tem ajudado a superá-los, conversamos com Júnior Pereira, Engenheiro Sênior da Empresa. Confira.

Júnior Pereira, Engenheiro Sênior da Vale

A evolução da mineração brasileira

P: Quais os grandes desafios da mineração hoje?

V: A preocupação constante com o meio ambiente e com a utilização de recursos cresce de forma exponencial, sobretudo no segmento da mineração. Proveniente a essa questão retratada, reduzir os impactos gerados pela atividade mineradora com visão de sustentabilidade é um dos grandes desafios enfrentados, a meu ver. A Vale vem trabalhando assiduamente em diversas frentes vinculadas a esse viés.

P: Quais as inovações que vêm sendo apresentadas?

V: A indústria 4.0, hoje, dentro da Vale, é utilizada com o principal objetivo de aumentar a segurança operacional e se mostra presente de diversas formas. Em especial, nos caminhões fora de estrada, que já trabalham de forma autônoma. No passado, tínhamos operadores que eram responsáveis por realizar a condução desses veículos e, agora, isso já não é mais necessário.

Por vezes, pode-se ter a percepção de que estamos tirando a ação do homem. Mas é justamente o contrário. Há uma nova função para o colaborador que estava por trás daquele ativo operacional, de forma que ele consiga fazer uma gestão deste equipamento. Então, hoje, o que eu vejo como um marco inolvidável do processo de mineração, especialmente no Brasil, são esses caminhões autônomos que a gente tem, hoje, operando na planta de Brucutu, e que representam muito para a Vale nesse contexto da indústria 4.0.

O papel da lubrificação no processo de beneficiamento

P: Quais são os maiores desafios em lubrificação que o setor encontra na etapa de beneficiamento?

V: Na usina de beneficiamento é onde recebemos o rom advindo da mina para ser processado e divido entre as pilhas de concentrado e as frações não econômicas – que chamamos de rejeito. No beneficiamento do minério de ferro, especificamente, as condições operacionais são bastante adversas.

As peneiras vibratórias, por exemplo, operam com cargas de impacto extremamente elevadas. Em todos os equipamentos, as chances de contaminação por partículas sólidas são extremamente elevadas, além do fator temperatura, que é uma variável crítica para o desempenho do fluido lubrificante adotado.

P: Quais os equipamentos mais delicados, que exigem mais atenção?

V: Todos os equipamentos merecem atenção, uma vez que a falta de disponibilidade de um deles pode comprometer a produção. Entretanto, existem algumas particularidades, como as peneiras vibratórias, que citei há pouco. Além dessas, podemos citar os classificadores espirais, há casos em que alguns mancais de rolamento operam embaixo d’água que, como sabemos, atua como agente contaminante nos lubrificantes. Junto a isso, ainda há a questão da baixa rotação operacional, associado à presença de contaminantes de granulometrias distintas.

As nossas máquinas de pátio, também, passam pelas mesmas variáveis operacionais que mencionei: cargas acentuadas e níveis de contaminação extremamente elevados. Então, para que um fluido possa performar nessas condições nada favoráveis, ele deve ser desenvolvido com tecnologia de ponta para assegurar a confiabilidade dos ativos. A empresa precisa acreditar no insumo que o fornecedor está entregando para que possamos, de fato, controlar as taxas de desgaste tribológico do componente lubrificado.

P: Quais são as características imprescindíveis para um lubrificante utilizado nesta etapa?

V: É claro que isso varia muito de ativo para ativo. Um classificador espiral, por exemplo, que opera onde há presença de água, com baixa rotação e níveis de contaminação acentuados, precisa de uma graxa que tenha um espessante saponáceo à base de sulfonato de cálcio. Isso porque, hoje, esse é um dos espessantes que apresentam melhor desempenho frente a essa questão de lavagem por água mencionada.

Entretanto, existem algumas características que são importantes para todos os fluidos utilizados nessa etapa e que têm a ver com as condições extremas do processo. A estabilidade ao cisalhamento e resistência à carga, por exemplo. É necessário, também, que se tenha aditivos  criteriosamente selecionados incorporados na formulação.

A mineração vem passando por grandes transformações. A PETRONAS está junto do setor nessa nova fase, fornecendo produtos que reduzem o custo da tonelada transportada, assim como os impactos ambientais e sociais da atividade. Veja mais sobre a participação da PETRONAS no segmento:

O papel da PETRONAS nas operações da Vale

P: Como a parceria da PETRONAS é estratégica para a Vale?

V: Eu trabalhei por 13 anos no segmento siderúrgico. Já naquela época, a PETRONAS era um fornecedor importante e isso se manteve quando passei a trabalhar na parte do beneficiamento de minério de ferro. Um dos pontos mais fortes é a possibilidade de ter produtos tailor-made, ou seja, feitos sob medida para as nossas demandas. Com o passar do tempo, percebemos que não era mais necessário encomendar uma fórmula, pois a PETRONAS já estava comercializando um insumo específico para as necessidades de lubrificação dos nossos ativos. 

Outro ponto que precisa ser destacado é a questão da confiança. Certa vez, precisávamos de um fluido com determinadas características e buscamos fornecedores que o tivessem disponível. Chegamos a 11 ou 12 empresas que alegavam ter produtos que suprissem tais necessidades. Entretanto, ao realizar a análise laboratorial desses lubrificantes, percebemos que parte desses não apresentavam o desempenho conforme especificado nos boletins técnicos. Por outro lado, a PETRONAS cumpriu, e provou, todos os requisitos apresentados. 

A Vale enxerga isso como um fator diferencial, porque sabemos que a PETRONAS atende diversos segmentos, fabrica toneladas de produtos. Então, para manter um controle fidedigno, ao ponto que você consiga ter um bom gerenciamento dessas características, é um fato que nos dá muita segurança quanto à qualidade oferecida.

P: Nesse tempo de parceria, você consegue citar algum caso em que os produtos PETRONAS foram determinantes para a Vale?

V: Há um caso, em específico, que é bastante interessante, onde pude presenciar o desempenho de um produto PETRONAS em outra companhia. Tínhamos alguns rolamentos que eram aplicados em cilindros de laminação. A empresa comprava cerca de 20 rolamentos para substituição, por ano, sendo que o valor médio de cada um é de R$ 100 mil. Conduzimos uma avaliação para entender o porquê de termos um consumo tão alto. Foi quando descobrimos que o processo de lubrificação era deficitário. Isso acontecia pela forma como o lubrificante era aplicado, por conta dos canais de lubrificação existentes nos anéis dos rolamentos e do tipo de fluido utilizado.

Nessa mesma época, a PETRONAS estava desenvolvendo um produto à base de sulfonato de cálcio. Começamos, então, os testes e outras ações de manutenção. Foram instaladas algumas placas metálicas que favoreciam a inserção de água para o interior dos rolamentos, além da aplicação de elementos de vedação mais eficazes. Ao fim, conseguimos sair de um consumo de 20 rolamentos para 1 ou 2 por ano. 

Tive, também, outra experiência com uma solução tailor-made da PETRONAS, quando ainda trabalhava no segmento siderúrgico. Nessa empresa, o gasômetro utilizado para o armazenamento do gás de coqueria, apresentava no seu interior um pistão móvel selado internamente por um lubrificante ainda da década de 80. Era frequente enfrentarmos problemas provenientes da bombeabilidade deficitária do fluido em baixas temperaturas e, mesmo assim, consumíamos uma enorme quantidade desse produto. 

Foi quando decidi investigar o porquê de ainda usarmos um lubrificante tão antigo. Na verdade, o motivo era muito simples: “sempre foi feito assim”. Indo mais a fundo, entendi que não havia nenhum argumento técnico para usarmos aquele determinado produto. Como essa havia sido uma recomendação do fornecedor, ninguém questionou os porquês da indicação e novas compras foram sendo feitas. Após o estudo das necessidades de lubrificação do gasômetro, foi detectado que precisaríamos de uma graxa de espessante saponáceo de lítio, com óleo básico grupo I, aditivada com antioxidantes e inibidores de corrosão. E, mais uma vez, a PETRONAS se dispôs a produzir a fórmula exata que precisávamos.

Então, aplicamos o produto nesse gasômetro e o resultado foi muito acima do esperado. Conseguimos reduzir o consumo da graxa na ordem de 60% e resolver os problemas de bombeabilidade em baixas temperaturas. Acredito que esse trabalho em conjunto representa uma quebra de paradigma, onde conseguimos provar, tecnicamente, que existem outras possibilidades de lubrificação a serem buscadas além daquelas que tradicionalmente conhecemos e estamos acostumados. 

Esta entrevista faz parte de uma série produzida pela PETRONAS com clientes de diferentes segmentos. Continue acompanhando o Inovação Industrial para ficar a par das novidades do cenário industrial brasileiro. Confira o portfólio completo neste link.

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